sábado, 1 de janeiro de 2011

Primeiro dia sem Ana


Meus pés frios sob a cama vazia clamam pelos teus pés quentes. Pés quentes e teus que querem se juntar aos meus, juntar-se o meu corpo, tê-lo inteiramente grudado, enroscar-se de amor e aproximar teu desejo carnal de mim, abraçar-me forte, beijar-me ferozmente, fazer-me carícias e sussurrar em meus ouvidos sobre as estrelas que caem e explodem dentro de ti, sobre as florestas de flores que nascem sob teu coração, sob a imensidão de vermelho que toma conta de teu ser. Amor. A gente rola, grita, geme, explode, nasce, cresce, morre, vive e beija. Num olhar cabisbaixo você me beija, sente, vive. Dorme. Sentimos e vivemos. Acordo, mas você não está na cama, continua vazia. Continuará vazia e meus pés frios.

Que a gente foi um e somos dois. Você diz - segue, vai logo, vai sem mim. Eu vou. Eu vou, mas me deixa antes dizer que posso seguir sozinha. Posso remar o barco sem ninguém ao meu lado. Posso caminhar sob a estrada sem sorrisos. Posso correr sem ninguém pra me alcançar. Posso cair sem ter ninguém pra me segurar. Posso voar, virar estrela, surgir como cometa e cair sem ter ninguém pra assistir. Posso ser a melhor bailarina sem platéia. Posso pintar os mais belos quadros para ninguém. Posso deitar em minha cama vazia. Posso fazer comida pra dois e não comer. Posso ir, sem voltar. Eu posso seguir sem você, seguir sem um dois. Se você me pede. Eu posso ir e vou. Mas saiba que dói. Só não posso dizer que será melhor, que será mais bonito e feliz. Não posso dizer que tudo isso será realmente melhor do que remar junto a você; do que caminhar com alguém a me fazer sorrir; do que correr e brincar de pega-pega que eu lhe deixo me alcançar e depois você me deixa lhe alcançar; do que cair e você me estender a mão para ajudar; do que voar, virar estrela, cometa e brilhar nos céus sem você para voar e brilhar junto à mim; do que dar os melhores craquetes no palco sem você para aplaudir; do que pintar uma vida a dois; do que deitar numa cama e dormir de conchinha; do que abraçar alguém e sentir amor e sentir vontade de viver e sentir vontade de seguir forte; do que olhar nos olhos de alguém e esquecer de todo o mundo; Não vai ser melhor, nem mais bonito, nem mais feliz. É. Não vai ser, mas sigo como um. Sem o dois. E isso tudo porque eu não me atreveria a pedir para ser dois àquele que não sabe nem se quer ser um.

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